A chuva caia forte e logo na chegada, vi um deficiente mental se jogando no chão na entrada próxima a recepção a ponto de não querer entrar de maneira alguma naquele ambiente e gritava muito, porém não balbuciava palavras concretas e sim, apenas um grito de desespero para não entrar ali. Com ele estavam duas mulheres, acredito que uma era a mãe e a outra uma amiga ou até mesmo uma irmã. Naquele instante elas estavam ali sem completa reação com o garoto se debatendo e o que será que passava por suas cabeças? Seria o constrangimento daquela cena, seria um pedido de socorro para um auxílio emergencial de algum enfermeiro ou segurança? Ou seria apenas mais um capítulo do que já vivem diariamente? As pessoas ao redor ali paradas apenas observavam a cena e em seus olhares era claro o julgamento de por que aquele garoto estava agindo daquela forma, por que essa mãe não o arrasta logo para dentro? O que devemos fazer? Normalmente em ocasiões desse nível parece surgir em nossas cabeças um bloqueio, seja de medo, receio ou constrangimento de tentar ajudar e se passar pela pessoa ruim ou abusada, pois ninguém solicitou sua ajuda, porém nos olhos daquela mãe, era óbvio que o socorro seria necessário, porém sem pedi-lo, nada seria feito, foi quando um segurança apareceu com um cadeira de rodas e com muita paciência e ao mesmo tempo sangue frio conseguiu com a ajuda das mulheres tirar o garoto da chuva e aos berros entrou na recepção. Esse segurança além de pensar, também agiu, sendo que com aproximadamente dez pessoas olhando aquela cena, ninguém fez exatamente nada.
Quando me sentei para aguardar minha esposa, vi diversas pessoas ali, cada uma com sua expressão forte, olhar atento e até olhares ao nada, mas presas em seus pensamentos deixando tudo isso claro em sua fronte. Percebi um senhor com olhar firme concentrado em um sofá vago, olhando cada detalhe, em sua cabeça parecia estar passando a aflição daquele lugar, ele aparentava estar por volta dos setenta anos e parecia que sua esposa estava ali internada; olhando bem sua feição, estava ali mas ao mesmo tempo não estava, era uma espécie de modo avião com doses de tranquilizante tentando entender aquele momento. Ao seu lado estava um rapaz por volta dos trinta e cinco anos reunido com a família, seu semblante era magnífico e pelo pouco que ouvi o mesmo acabara de se tornar pai, sua alegria era transparente e em sua mente tive a impressão de balões coloridos estarem voando como numa festa de carnaval. Mais a frente em duas poltronas vi dois senhores que aparentemente não estavam além dos cinquenta anos, pareciam estar contando piadas, pois suas faces refletiam sorrisos sarcásticos, não sei se pelo local que estavam ou se pela conversa que seguia, mas estavam tranquilos, seus rostos não passavam aflição, tristeza e nem felicidade, passavam algo ameno, neutro. Uma mulher estava sentada a minha frente e falava ao telefone com um semblante de tensão, aparentava ter cinquenta e cinco anos e sua voz era trêmula, seu olhar era constante para o chão deixando clara sua concentração naquele diálogo que seguia, e sua cabeça estava voltada apenas para aquilo como se ao seu redor não tivesse ninguém, apenas uma escuridão que a deixava sozinha com o celular grudado em seu ouvido. De repente meu celular vibrou no bolso e a mensagem dizia para subir, pois o esposo da nossa amiga tinha decido e ele iria trabalhar. Quando o encontrei na recepção pouco antes de entrar no elevador o parabenizei por aquele momento, ele estava ao telefone e notei que tentou assimilar o que eu falei da mesma forma que tentava assimilar o que estavam dizendo do outro lado da linha, pois bem, subi.
Quando entrei no quarto me deparei com um sorriso imenso de orelha a orelha e um bebê recém nascido deitado em sua frente, minha esposa estava sentada em uma poltrona ao lado da cama. Nossa amiga me entregou o bebê para pegar no colo e sentir como era aquilo tudo. Quando o coloquei nos braços, aproximei meu rosto e pude ver o formato tão pequeno daquela boca, nariz, orelhas, olhinhos bem fechados e tudo esculpido de uma forma tão delicada que parecia quase uma boneca; fiquei um pouco espantado da perfeição daquele ser tão pequeno que ali estava e que anos a frente tomará a forma da pessoa que será pelo resto da vida. Era uma menina e dormia um sono dos deuses, com uma cabecinha serena de um cérebro que ainda estava por entender o que significava tudo aquilo e que quando finalmente entender, não se lembrará de nada que aconteceu naquelas horas que seguirão para o começo de uma nova cabecinha pensante.
Fonte Imagem: http://www.noticiasdaserra.com.br/

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